RJ esconde um tesouro ciclístico chamado Estrada do Sumaré

Por Erika Sallum

Poucas cidades do Brasil — e provavelmente do mundo — reúnem tantos atrativos ciclísticos quanto o Rio de Janeiro. Gosta de treinar forte em percursos planos? Basta ir cedinho para o Aterro do Flamengo ou pegar parte do circuito olímpico, na região da Prainha. Seu barato é apenas pedalar sem compromisso? Alugue uma bicicleta e dê um rolê pelas ciclovias à beira-mar. Agora, se o que você mais ama são montanhas, aaahhh, meu caro, então a capital fluminense é mesmo seu habitat. Escaladas como a da Vista Chinesa, Paineiras e a sempre dolorida Canoas são um “must” para quem curte o sofrimento de subir sem parar.

Mas, enquanto os holofotes se voltam para subidas concorridas como a da Mesa do Imperador, uma estrada praticamente deserta no Parque Nacional da Tijuca figura entre os desafios montanhosos mais legais do Rio: o Sumaré.

Pouquíssima gente, quase sem carros, o Sumaré é cercado de mata fechada e bem tropical (Foto: Erika Sallum)

Com 12 quilômetros desde o começo até a “caixa d’água”, a estrada do Sumaré tem um passado recente de crimes e insegurança — por isso, muitos ciclistas locais optam por não fazê-la. Para pedalar ali, melhor ir acompanhado e evitar o cair da tarde (apesar de haver grupos cariocas que têm realizado até pedaladas noturnas por lá). Poucos carros trafegam por seu asfalto castigado, e não existe policiamento como na Vista, por exemplo.

Depois de 12 km, a recompensa é a vista da Zona Sul do Rio, em todo o seu esplendor (Foto: Erika Sallum)

A subida é “rolada”, não muito íngreme, o que permite treinos vigorosos, com espaço até para “tirinhos” quando a inclinação dá uma trégua. E, quando se chega lá em cima, que vista! Ao olhar para a esquerda, dá para admirar o Cristo Redentor pertinho, seguido depois por um mirante da Zona Sul carioca. Quando surge a tal caixa d’água, você tem algumas opções de descida para voltar à cidade, todas belíssimas.

O Sumaré já passou por fases áureas antes de cair no isolamento em que se encontra até hoje. Como mostra esta foto abaixo, havia ali um elegante restaurante, para onde se podia ir de bonde. Entretanto o sonho de fazer da estrada do Sumaré um polo turístico para quem quisesse fugir do calor lá embaixo desmoronou. O bonde e o restaurante foram desativados, e a falta de visitantes deu lugar a vários episódios de roubos e assassinatos.

Cartão-postal do século passado que mostra o bonde e o restaurante do Sumaré (Foto: Reprodução)

Ao longo da estrada, fica a Residência Assunção – ou Palácio Apostólico do Sumaré –, uma propriedade que abriga religiosos católicos e que já hospedou os papas João Paulo II e, mais recentemente, Francisco. Em uma das visitas de João Paulo II, foi construído um heliporto perto da residência, que pode ser visto quando se pedala rumo à caixa d’água.

As curvas fechadas e íngremes do Sumaré aguardam os ciclistas mais corajosos (Foto: Antenor Martins)

Uma pena imensa que esse tesouro ciclístico seja pouco usado por medo da violência. Em São Paulo, os ciclistas que curtem subida praticamente contam apenas com o Pico do Jaraguá para seus treinos. Quem nos dera termos por perto uma maravilha como o Sumaré. As Olimpíadas de 2016 revitalizaram diversas vias do Rio, que hoje recebem milhares de ciclistas, mostrando que, com boa vontade política, tudo se ajeita. Enquanto isso, o Sumaré, infelizmente, ainda está ao deus-dará.