Brasileiro é um dos três ‘sobreviventes’ a completar ultradesafio transiberiano de 9.200 km

Por Erika Sallum

Terminou ontem um dos maiores desafios do ciclismo de ultradistância do planeta: o Red Bull Trans-Siberian Extreme, em que os participantes fazem de bike o mítico trajeto ferroviário da Transiberiana, largando de Moscou até Vladivostok, na Rússia. Foram 24 dias, 14 etapas e 9.211 km. Dos dez ciclistas, de sete país, que largaram no dia 18 de julho, apenas três “sobreviveram” a mais de 350 horas em cima da bicicleta — entre eles, o brasileiro Marcelo Florentino Soares, o “Mixirica”, lenda local das provas de longas distâncias. 

O brasileiro Mixirica lidera o pelotão dos participantes da Trans-Siberian Extreme 2017 (Foto: Red Bull)

É um feito extraordinário, ainda mais quando se levam em conta alguns dados sobre a competição. O trajeto é quase o dobro da Race Across America (RAAM), outro desafio duríssimo do ultraciclismo em que os atletas cruzam os Estados Unidos e pedalam cerca de 4.800 km. Além da quilometragem, há os perrengues típicos da extensa região cortada pela Transiberiana, como tempo instável, oito fusos horários, cinco zonas climáticas, onde frio e calor praticamente se alternam sem parar. É uma prova não só para os fortes de pernas, mas especialmente para os bravos de mente. Só termina quem consegue superar não apenas a dor física das muitas horas no selim — manter o foco e controlar a cabeça é tão importante quanto bom fôlego e músculos em dia.

O brasileiro beija o asfalto em agradecimento ao completar a prova na quinta-feira (dia 10 de agosto) (Foto: Red Bull)

Esta é a segunda participação de Mixirica na Trans-Siberian Extreme, depois de muita batalha para descolar apoio e enfim conseguir bancar a viagem. De origem bastante humilde, esse brasileiro de 45 anos é figuraça, daqueles que a gente não esquece facilmente quando topa em um pedal por aí. Entre suas façanhas, está a impressionante travessia de bike do Monte Caburaí, na fronteira do Brasil com a Guiana, até o Chuí, no Rio Grande do Sul, durante a qual ele pedalou 10.332 km por 57 dias, cruzando 17 Estados do país. Isso por puro amor à bike e quase sem ajuda alguma para custear as despesas. Tudo na raça, na garra. Mixirica prova assim, mais uma vez, que a paixão por pedalar pode levar a gente bem longe, e que, apesar das dificuldades financeiras, dá, sim, para sonhar alto em cima de nossas magrelas. Parabéns!

Veja os vídeos das etapas da Red Bull Trans-Siberian Extreme 2017 aqui.