Critérios: um sopro de modernidade e rebeldia no mundo da bike

Por Erika Sallum

Poucas comunidades “da bike” hoje são tão irreverentes, modernas e deliciosamente rebeldes quanto a galera que organiza as provas de critério em cidades como Nova York, Barcelona, Berlim — e, que ótimo!, agora também em São Paulo, Rio de Janeiro e outros lugares do Brasil. Resumindo em termos bem simples: tratam-se de competições, boa parte delas superinformal, que em geral acontecem em circuitos fechados e curtos (por volta de 1 km). Há vários formatos e versões, porém a enorme maioria é realizada com bikes fixas, de uma só marcha, sem freio e com pinhão fixo (ou seja, não se pode parar de pedalar do nada, apenas aos poucos).

Entretanto o que, afinal, esses eventos amadores (salvo algumas exceções que cresceram e hoje se profissionalizaram) têm de tão interessante para o mundo das bikes? Alheias a patrocinadores gigantes e às regras de competições consagradíssimas e comerciais, os “crits” são um sopro de insolência em um universo muitas vezes dominado pelo marketing de grandes empresas ou pela mesmice do “pedalar-treinar-competir” (zzzz). A ideia aqui é totalmente “do-it-yourself”: apaixonados pela cultura urbana menos mainstream, os caras por trás dessas provas arregaçam as mangas e vão atrás do que acreditam ser a união perfeita entre bike, diversão, esporte e independência.

Em uma das edições do carioca Criterio Fixed, a corrida passou pelo Maracanã (Foto: Reprodução/Bruno Leão)

A “febre” dos crits teve como grande incentivador o sucesso do Red Hook Crit, que nasceu em 2008, bem modesto, no Brooklyn, em Nova York, e hoje se tornou uma marca poderosa, com edições em Londres, Barcelona e Milão. O Red Hook mostrou — para o público em geral e para a indústria da bike — que havia uma nascente turma de ciclistas ultradescolados que se apropriava de suas cidades pedalando. E que transcendiam o pedalar, transformando a bike no centro de seu estilo de vida. Jovens, tatuados, hipsters , antenadíssimos em música e contracultura, eles não se identificavam com a “galera de lycra” que treinava de forma bitolada e era careta demais. Transgrediam os rituais certinhos do ciclismo, e ainda comemoravam com muita cerveja e balada depois de cada prova.

A tatuadíssima americana Kelli Samuelson, no Red Hook de Milão, personifica a galera dos crits (Foto: Andrea Schilirò)

A terceira edição do Red Hook de Londres acontece amanhã — e, como sempre, deve oferecer um belo espetáculo de técnica, velocidade e acidentes. Crits são perigosos: imagine um bando de caras com bike sem freio loucos para chegar na frente. Veja esta impressionante sequência de quedas no Red Hook do ano passado:

No Brasil, os crits vêm, aos poucos, ganhando corpo. O próximo evento na agenda por aqui é o Daemon Track Crit 02, organizado pelo ciclista e designer mineiro Francisco Martins, do multiprojeto Daemon Cycling que inclui blog, pôsteres, jerseys e outras iniciativas. O crit vai rolar no dia 29 de julho, em Valinhos (SP). A primeira edição, bem underground, aconteceu sem divulgação prévia nas ruas da Universidade de São Paulo. Tudo na base do boca-a-boca, com apoios de amigos e algumas poucas marcas.

Cena do primeiro Daemon Track Crit, que aconteceu na USP no ano passado (Foto: Vinicius Martin/ Fixedgearbrasil)

O Daemon Cycling cresceu, e seu segundo critério também amadureceu. Mas ainda possui toda a aura “cool” de um genuíno crit feito na raça. Como em muitas provas semelhantes, as qualificatórias acontecem à tarde, e as corridas principais começam às 20h30 (com festa a partir das 23h!). A seguir, “Chicão” fala mais sobre os critérios:

Para você, qual o barato das provas de critério?
Criterios são legais porque combinam entretenimento para o público e uma corrida muito instigante para os atletas. O ritmo é intenso, rápido e técnico e coloca à prova atletas de todos os níveis. E o fato de acontecer em um circuito fechado faz com que toda a energia de uma corrida de ciclismo possa ser acompanhada de perto pelo público, que vibra junto a cada volta.

Como você conheceu esse tipo de prova?
O hoje consagrado Red Hook Criterium ​foi meu maior estímulo, também para pegar firme nos treinos. O formato corrida de rua com bikes de pista sem freio conseguiu colocar um toque de esporte radical no ciclismo competitivo, e isso é fascinante!

Por que decidiu organizar critérios por aqui, em um país difícil de se promover eventos?
​Primeiro porque é o tipo de corrida que eu gostaria de correr (participei das duas edições do Criterio Fixed, que aconteceu no Rio de Janeiro, em 2014 e 2015)​, mas não tínhamos nenhum evento em perspectiva. Aí eu decidi organizar um. Eu também queria aproximar a cena “fixed gear” no Brasil do ciclismo competitivo, em uma tentativa de fortalecer o esporte e movimentar marcas nacionais a apoiarem atletas.

Quais os desafios de se organ​izar uma prova dessas “na raça”?
Tudo é mais difícil, principalmente se você não conhece as pessoas certas. E sem investimento a coisa simplesmente não acontece. O ciclismo como esporte ainda é muito sucateado no Brasil, é dificil convencer as grandes marcas que são nos projetos pequenos a maior oportunidade de fidelização de novos clientes.