Tour de France feminino, que acontece nesta semana, é fruto de luta por igualdade no ciclismo

Por Erika Sallum

Quando for dada a largada da quarta edição do La Course, nesta quinta-feira (20), o que estará em jogo vai muito além da disputa para decidir quem é a ciclista mais rápida da versão feminina do Tour de France. O evento, que neste ano terá pela primeira vez duas etapas, é o resultado de uma longa luta das ciclistas profissionais por um espaço mais equilibrado e justo para as mulheres no esporte. É também fruto de uma nova percepção das marcas envolvidas no universo da bike de que é preciso, sim, olhar com mais atenção e seriedade para a consumidora — que durante décadas foi relegada a segundo plano.

O maior evento mundial do ciclismo de estrada já contou com edições femininas no passado. Mas, acompanhando uma dura saga de altos e baixos da luta por direitos iguais no esporte, o Tour de France só delas surgiu e desapareceu algumas vezes ao longo da história da competição. Houve um Tour Cycliste Feminin entre 1984 e 1989, que tinha 15 etapas, mas que foi abruptamente cancelado. Retornou, em outro formato, em 1992 até 2003, e aí desapareceu novamente. Em 2005, ressurgiu com o nome de La Grand Boucle, para morrer alguns anos depois. Uma desilusão para as ciclistas profissionais, que tinham consciência da importância de se correr um Tour de France para dar mais visibilidade ao ciclismo feminino.

Versão 80s do Tour de France feminino, cancelado abruptamente em 1989 (Foto: Reprodução)

Inconformado, um grupo de ciclistas porreta decidiu arregaçar as mangas e dar um basta na situação. Criaram um movimento internacional, batizado de Le Tour Entier, do qual faziam parte atletas renomadas, como a holandesa Marianne Vos (a maior ciclista de todos os tempos) e as britânicas Chrissie Wellington, campeã mundial de triathlon, e Emma Pooley, medalha de prata na Olimpíada de 2008. O grupo fez pressão nas redes sociais e criou uma abaixo-assinado exigindo um Tour feminino, que, em dois dias, conseguiu 10 mil assinaturas e, após três meses, pulou para mais de 100 mil. Diante de tanto barulho, a empresa A.S.O., que organiza o Tour de France, enfim cedeu e resolveu fazer uma versão delas.

As ciclistas do La Course by Le Tour de France 2016 dominam a Champs-Élysées, em Paris (Foto: © A.S.O. / P.Ballet)

Porém as conquistas foram, no mínimo, modestas. As primeiras três versões do La Course tiveram apenas uma só etapa, que acontecia no último dia do Tour masculino, em Paris. O trajeto, totalmente plano, favorecia somente um tipo de ciclista, deixando de lado o talento das escaladoras (especializadas em pedalar em montanhas). Um Tour de France feminino precisava, e muito, ser composto de várias etapas, como o dos homens, com diferentes tipos de percursos para testar a garra das atletas — e, claro, realmente atrair a atenção do público.

Eu assisti, ao vivo, duas edições do La Course em Paris, que só acontece também por causa do patrocínio da marca de bikes Specialized. Com muito menos divulgação que a versão masculina, o La Course tinha público diminuto, e muitos franceses nem sabiam que ali, naquelas ruas de paralelepípedo da região da Champs-Élysées, acontecia uma prova de bike de mulheres.

O mito Marianne Vos, ícone do ciclismo, e uma das responsáveis pela criação do La Course (Foto: © A.S.O./P.Ballet)

A edição 2017 já é uma pequena evolução, com duas etapas. Na quinta-feira, elas enfrentam a mítica subida do Col d’Izoard, em um percurso de 67.5 km. E no sábado (22) haverá um contra-relógio de 22.5 km, em Marselha. Algumas das melhores ciclistas do planeta estarão lá, como a francesa Pauline Ferrand-Prévot, campeã mundial de estrada e de mountain bike e, claro, Marianne Vos. A brasileira Clemilda Fernandes Silva também vai competir.

Ainda não é o Tour de France que essas estrelas do ciclismo feminino merecem. Mas já é um bom começo de uma trajetória de mulheres e bikes que só faz crescer nos últimos anos. Só não vê quem não quer.