Brasileira pedala por quatro anos e 19.000 km na América do Sul

Por Erika Sallum

A ideia inicial era pegar a bike e curtir um ano sabático pedalando por aí. Quatro anos depois, a paulista Carol Emboava, 35, ainda está na estrada, em uma jornada surpreendente pela América do Sul na qual já percorreu quase 19.000 km e visitou seis países. Se seguir os planos — coisa que muitas vezes não costuma fazer, preferindo ouvir os chamados do destino –, ela deve por um fim em sua saga sul-americana daqui a três meses, completando provavelmente uma das mais longevas e incríveis cicloviagens já realizadas por uma brasileira.

Carol Emboava na Carretera Austral (Foto: Arquivo pessoal)

Graduada em educação física e especialista em nutrição, Carol sempre curtiu pedalar, mas uma lesão por pouco não a afastou por completo da bicicleta. Seu ortopedista chegou a dizer que ela nunca mais conseguiria passar muito tempo em cima da bike. Felizmente, a moça não acreditou no médico. Fez cirurgia, enfrentou um longo processo de fortalecimento do joelho e, aos poucos, foi retomando a antiga paixão. Até que resolveu celebrar a vida em uma viagem de bike pelo Brasil e países vizinhos — em um projeto que batizou de Giramérica.

No momento, ela está no Nordeste do Brasil, da onde vai pedalar até a volta para casa, em Taubaté (SP). A seguir, a ciclista fala um pouco sobre os anos na estrada:

Celebrando a vida no Salar de Uyuni, na Bolívia (Foto: Arquivo pessoal)

Como um ano sabático se transformou em quatro anos e 19.000 km?
CAROL EMBOAVA Após cerca de uns quatro meses de viagem, comecei a perceber que um ano seria pouco (risos). Eu tinha um planejamento financeiro para 12 meses, então precisei dar um jeito para conseguir prolongar a viagem. Trabalhei alguns meses em Ushuaia, na Argentina, para fazer grana e aí segui em frente. Fiz isso também em outros lugares, como San Pedro de Atacama, no Chile. Apesar de ficar parada e, como consequência, perder o ritmo do pedal, adorei a experiência de viver e trabalhar nessas cidades.

Quais as maiores lições que você aprendeu até agora ao viajar de bike pela América do Sul?
A maior lição foi aprender a viver com menos — e, acima de tudo, viver feliz com menos. Na minha “outra vida”, antes do Giramérica, eu já havia tentado praticar o desapego, mas é difícil quando a gente tem lugar para acumular coisas, como casa, guarda-roupa. A bicicleta oferece um espaço limitado, com uma quantia específica de peso que dá para carregar. Por isso passei a viver com muito, muito menos mesmo. E percebi que isso não era tão importante. Em nenhum lugar onde passei, fez diferença se eu estava usando a mesma roupa havia dois meses. A segunda maior lição foi aprender a confiar nas pessoas. Quando alguém abre as portas de casa para me receber, é uma relação de confiança mútua. Seja pela rede de couch surfing ou alguém que conheci na rua, trata-se de um desconhecido, e vice-versa, afinal, a pessoa não sabe quem eu sou. Mas ali se constrói sempre uma relação de confiança muito bonita.

Mostrando o lado girl power em San Pedro de Atacama, no Chile (Foto: Arquivo pessoal)

Muito se fala dos perigos de “ser mulher” e viajar de bike. Sua jornada desmistificou isso, ou não?
Sim, viajar de bike sozinha desmistificou completamente essa ideia. Para mim, foi por terra o estereótipo de que uma mulher precisa estar acompanhada para se lançar nesse tipo de aventura. Foi a primeira vez que saí do país sozinha de bike e não tinha a menor ideia de como seria. Passei por países bem mais machistas que o Brasil, como a Bolívia e o Peru. Mesmo assim, não tive qualquer problema por ser mulher e estar sozinha. Recebo ajuda de homens, mulheres, famílias, e em nenhum momento me senti em perigo ou risco por ser mulher. Tenho apenas dois casos isoladíssimos, em quatro anos de viagem, de abordagens um pouco mais rudes, porém nada de grave ocorreu. Nunca precisei gritar ou brigar e jamais fui assaltada.

Qual país ou região você curtiu mais até agora?
É muito difícil escolher um só lugar. Especialmente porque os lugares que mais me marcaram não são, em muitos casos, destinos turísticos famosos. Neles, tive experiências maravilhosas, sempre com as pessoas locais. Por exemplo, Ushuaia, na Argentina, foi muito especial, pois criei uma vida no período em que morei ali. O mesmo se deu com San Pedro de Atacama, no Chile, onde trabalhei em um hotel lindo. Posso resumir dizendo que, para mim, o que mais gostei foram as pessoas, e não os lugares – os argentinos são imbatíveis, adorei conviver com esse povo que se torna amigo facilmente. Viajar pelo Brasil, também, tem sido incrível, muito especial mesmo; o brasileiro é receptivo, tem o tal calor humano.

Toda carregada, mas feliz da vida, na Argentina (Foto: Arquivo pessoal)

Qual conselho você daria para quem sonha em conhecer o mundo de bike?
Meu maior conselho seria: não espere as condições perfeitas para viajar de bike. Eu conheci muita gente que sonha com isso, mas que fala que não tem grana, ou está sem uma bike boa, não tem alforje etc. As condições perfeitas nunca chegam, nós é que precisamos criá-las. A bicicleta que você tem já serve. Não possui alforje? Tente uma mochila. Conheci gente viajando com mochila amarrada no bagageiro, gente que transformou balde em bagageiro, gente com pouquíssima grana. Outro conselho, bem clichê, é: abra o coração. As coisas boas acontecem para quem está com o coração aberto. Eu me surpreendo todos os dias viajando. Todos os dias acontecem coisas boas na estrada, porque estou sempre aberta para novas experiências.

Selfie com os guanacos (ao fundo) na Península Valdés, Patagônia argentina (Foto: Arquivo pessoal)
Pedalando nos Lençóis Maranhenses (Foto: Arquivo pessoal)