Juntas, duas ciclistas superam cegueira e brilham na Copa Brasil de Paraciclismo

Por Erika Sallum

Aos 25 anos de idade e quatro de ciclismo, a curitibana Taise Benato nunca havia pedalado uma bike tandem — como se chama a bicicleta para duas pessoas. No final de semana passado, a moça, que é ciclista profissional da equipe Memorial-Santos/Fupes, não só experimentou pela primeira vez a modalidade como estreou no papel de “ciclista-guia” na 1ª etapa da Copa Brasil de Paraciclismo 2017, que rolou em Indaiatuba (SP). Ao lado de Marcia Fanhani, deficiente visual e ciclista porreta daquelas que não aceitam “não” da vida como resposta, formou uma dupla poderosa, que venceu as provas de estrada e de contra-relógio do evento.

Marcia, que não enxerga devido a uma atrofia do nervo ótico, representou o Brasil nos Jogos Paraolímpicos do Rio. Jamais havia pedalado com Taise, mas nem a falta de treino em conjunto impediu que as duas brilhassem na Copa. “Meu treinador entrou em contato comigo e perguntou se eu tinha interesse em participar do campeonato de paraciclismo. Eu gosto de desafios, não tenho medo de arriscar e aceitei de cara. Até porque sabia que seria uma belíssima experiência de vida”, diz Taise, que tomou gosto pela bike em aulas de spinning quando fazia estágio em uma academia. Incentivada pelo professor, comprou uma bike. No segundo ano, já competia provas regionais do Paraná. E em 2017 foi convidada para integrar sua primeira equipe profissional, a Memorial.

Taise Benato e Marcia Fanhani, na 1ª etapa da Copa Brasil de Paraciclismo (Foto: Divulgação)

Taise mora em Curitiba, Marcia, em Santos. Trocaram algumas mensagens por WhatsApp e decidiram que a distância que separa as duas não seria um obstáculo para que tentassem uma boa colocação (ou, pelo menos, uma boa aventura). “Fizemos a largada dando o máximo. Na tandem, não tem como uma só pessoa fazer força. É preciso estar ali 100%”, conta Taise. As duas, unidas, quebram uma imensidão de barreiras e preconceitos — e mostram toda a garra do ciclismo feminino, do paraciclismo, do amor pela bike que tudo supera. Que lindo vê-las juntas.

Marcia (atrás) festeja a participação na Copa, guiada por Taise (Foto: Divulgação)

A seguir, um bate-papo com Taise sobre a experiência inédita como “ciclista-guia”de Marcia:

Como foi pedalar como guia da Marcia?
TAISE BENATO É uma experiência alucinante duas pessoas na mesma bicicleta, trabalhando pelo mesmo objetivo, com o mesmo foco. Estou aprendendo muitas lições com a Marcinha como pessoa. Ela é muito guerreira, transmite uma energia muito boa, me faz querer sempre vencer barreiras. Não tenho palavras para descrever o quão importante essa experiência tem sido para mim como ser humano e como atleta. E não é só a Marcinha, mas os outros atletas dentro do paraciclismo. Rola um clima de muita energia positiva.

Quais as dificuldades, como ciclista, de pedalar uma tandem e ser guia ao mesmo tempo?
A primeira e principal dificuldade foi a de subir juntas em uma tandem. É preciso saber controlar a cadência, aprender o ritmo ideal para a Marcinha para, juntas, conseguirmos fazer o melhor. Trocamos muitas ideais, principalmente na hora do aquecimento. No decorrer das provas, fomos evoluindo e entrando no ritmo sem nem perceber.

Quando você está na frente da bike pedalando, dá tempo de conversar com a Marcinha? Você avisa ela de buracos e curvas?
Eu sou os olhos da Marcinha, ela precisa saber de tudo que está a nossa frente. Todos os detalhes da prova, de cada percurso, ela tem de estar ciente de tudo. Por conta disso, nós conversamos o tempo inteiro. Um exemplo é quando vamos fazer uma curva. Se as duas não souberem para que lado o corpo precisa inclinar, se não realizarmos o trabalho corporal juntas, não conseguimos  fazer a curva. Falamos o tempo inteiro: curva à direita, curva à esquerda, lombada, buraco. O tempo todo conversando em cima da bike. Vamos atacar, vamos acelerar. Criamos uma sintonia tão grande, que, no decorrer da prova, em um momento que eu estava muito cansada, ela já conhecia tão bem o percurso que falou o que viria logo depois de uma das curvas.

E treinar à distância, cada uma em uma cidade?
Trocamos algumas ideias por telefone e WhatsApp. E tivemos a ajuda fundamental da treinadora Nelma Raizer. Como moramos em cidades diferentes, a Nelma realiza todos os treinamentos com a Marcinha. Ela me passou as dicas e detalhes que fizeram toda a diferença. E me fez entender que eu seria os “olhos” da Marcia durante toda a prova.

Marcia Fanhani, deficiente visual e ciclista maravilhosa (Foto: Divulgação/Ivan Storti)