Começar a pedalar (e continuar) não é fácil. Persista!

Por Erika Sallum

Assim que este blog nasceu, em abril, uma amiga me enviou um comentário que resume bem o martírio de quem adora bicicleta, mas pena para conseguir manter uma relação mais próxima a ela. “Por que é tão difícil não apenas começar a pedalar, mas especialmente continuar pedalando?”, escreveu Aline Sordili, minha amiga. Ela, que sempre curtiu a liberdade que a bicicleta proporciona, de repente se viu com medo de cair. Logo a Aline, que quando jovenzinha “andava a milhão”. “Não sei explicar o que houve… acho que, quando a gente é criança, não tem receio. Ganha velocidade, se joga em valeta e vai sempre em frente. Mas agora dá medo, e isso gera o desequilibrio”, contou.

Ciclista pedala na ciclovia da marginal Pinheiros (Fabio Braga/Folhapress)

Uns param de pedalar por medo, outros porque não se acostumam com o esforço físico ou porque não se adaptam ao equipamento (e a bike fica lá jogada na garagem). Seja lá a razão, o fato é que começar – e, principalmente, continuar – a pedalar não é mesmo tarefa fácil. Pensando nisso, resolvi consultar alguns experts no assunto.

Desses papos, surgiram as “cinco maiores verdades para o ciclista iniciante”, não importa se ele ou ela quer pedalar por esporte, lazer ou como meio de transporte. Supere os obstáculos iniciais e siga adiante nesta que será para sempre uma das relações mais sensacionais da sua vida. Boas pedaladas!

1. VAI DOER
Quem quer começar a pedalar precisa aceitar que, por um bom tempo, os músculos vão reclamar. “No início, tudo dói mesmo”, diz a treinadora e ciclista porreta Rosimara Martinelli, sócia-diretora e treinadora da 5Ways Coaching, uma das mais tradicionais assessorias esportivas paulistanas especializadas em ciclismo. “A natureza humana tem o hábito de resistir ao que é novo, mantendo os hábitos antigos. É preciso dedicação e persistência.” Rosi, como é conhecida pelos alunos, explica que são necessários, no mínimo, seis meses para que uma nova rotina vire um hábito consolidado. “O importante é começar devagar: três vezes na semana, com 30 minutos diários, é o suficientes para trazer benefícios à saúde e ao corpo. Não desanime nos primeiros dias. Seja forte e resista!”, diz ela. A treinadora recomenda  criar metas realistas. Por exemplo: pedalar 20 km, aí aumentar para 30 km, 40km, e assim sucessivamente. “Se puder, arrume uma companhia para o pedal. Isso traz motivação e diminui as chances de você desistir.”

Ela lembra ainda que alongar é fundamental para aliviar as dores e prevenir lesões. “Recomendo sessões de alongamento separadas das sessões de ciclismo. De uma a duas vezes na semana, com duração de 20 minutos”, diz Rosi.

JP Amaral, do Bike Anjo, que ajuda pessoas a perderem o medo de pedalar (Avener Prado/Folhapress)

2. VAI DAR MEDO
Mesmo os profissionais da bike já sentiram medo ao pedalar. Muito medo. É um esporte perigoso, e todo mundo que pedala com frequência tem uma história para contar de um tombo feio. Por isso, se você está começando a tomar gosto pela bicicleta, não adianta lutar contra: vai dar medo mesmo. “É totalmente normal você ficar com medo em qualquer experiência nova, em especial quando ela requer um nível de ‘coragem’ que, aparentemente, é alto, como pedalar nas ruas de São Paulo, por exemplo”, diz JP Amaral, cofundador do Bike Anjo, uma organização sensacional que ensina as pessoas a perderem esse medo (e que hoje já funciona em 24 países!).

JP Amaral sugere que você comece aos poucos, primeiro em parques ou praças tranquilas, sem obstáculos. Depois vá para bairros residenciais e coloque a bicicleta na sua rotina, mesmo que seja só para ir à padaria no fim de semana. “Por fim, como nossas cidades não são totalmente preparadas para a bicicleta ainda, busque os caminhos e rotas que tragam mais conforto e segurança, como ruas secundárias e paralelas a avenidas. Você verá que, pouco a pouco, criará confiança para pedalar nas ruas.”

E, nessas horas, ter companhia é uma bela mão na roda. “Grupos de passeios ciclísticos e o próprio Bike Anjo estão aí para isso.”

3. VAI FURAR PNEU
Bike é equipamento. E equipamento quebra. Precisa de manutenção mínima. Não adianta comprar uma bicicleta e nunca colocar um óleo na corrente, ou encher o pneu no posto a cada quatro meses. Cuide de sua magrela, é uma questão de segurança, pois uma bike mal cuidada por dar problema em uma descida e causar acidentes. Outro ponto essencial: jamais saia de casa sem os apetrechos para trocar pneu (não é tão difícil quanto parece!).

A ciclista e empresária Talita Noguchi, dona da bicicletaria e bar Las Magrelas, explica o que é preciso para te salvar de roubadas ciclísticas: aprender a trocar pneu e carregar sempre uma câmara extra, um par de espátulas, uma bomba de mão e um kit-remendo (para não depender só da câmara extra). “Mantenha a relação da bike sempre limpa e lubrificada, assim você não desperdiça dinheiro com desgaste prematuro dos componentes”, diz ela. “E uma manutenção completa a cada 4 mil kms rodados.”

Os tutoriais do projeto Chave Quinze são uma beleza para se aprender o básico da mecânica de bikes.

4. VAI DAR FOME
“Quando começamos a pedalar, se houver um pouco mais de vigor nesse exercício, a fome provavelmente vai aumentar”, avisa a nutricionista, ciclista e corredora Patrícia Campos Ferraz, da clínica Move. Dependendo do quanto usar a bike, sua dieta vai precisar de alguns ajustes. Sempre carregue uma garrafinha de água para se hidratar durante o rolê, mesmo os curtos. “Para levar nos pedais, frutas secas, barras de cereais e frutas desidratadas são boas opções”, diz Patrícia. “Levar algo salgado também ajuda, como pão com queijo.”

A designer Laila Rodrigues, que treina ciclismo há um ano, toda felizona pedalando (Foto: Diana Assennato Botello)

5. VAI VALER (MUITO) A PENA
Ciclista iniciante, não desista! Todo nós já passamos por essas dificuldades. Aguente as pontas, insista. Pode xingar um monte quando o despertador tocar cedo demais – porém acorde e vá pedalar. Furou o pneu e não conseguiu trocar de jeito nenhum? Calma, na próxima vai dar certo. Bateu aquele medo brabo na descida? Vá devagar, aos poucos você ganhará coragem. Confie, acredite. A recompensa será das melhores.

Veja o caso da designer Laila Rodrigues, que passou a se locomover de bike pela cidade em 2012 e que há um ano começou a treinar ciclismo de estrada. Ela foi desenvolvendo confiança devagarzinho, dando tempo ao tempo, incentivada por amigos. Muitas vezes não é fácil — haja força de vontade para madrugar para treinar na USP, encarar vento contra na estrada, fazer muita força para vencer longas subidas. Mas Laila tem melhorado a cada dia (a foto acima mostra bem sua felicidade em cima da bike).

“Seja para circular na cidade, seja como esporte, a bike traz autonomia. É muito bom ir de um lado para o outro mais livremente. Saber de verdade o tempo que leva e qual a exata distância até os lugares. Não pagar nada por circular por aí, sem dramas para estacionar…”, diz ela.

Vento na cara, sorriso no rosto, problemas para trás, e a paisagem se modificando a cada pedalada. Quer coisa melhor?