Colombiano Nairo Quintana dá show no Giro d’Italia e enche de orgulho a América Latina

Por Erika Sallum

É só bater o olho em Nairo Quintana, 27, para perceber que sua presença na elite do ciclismo mundial representa muito mais do que apenas conquistas esportivas. Baixinho para os padrões de seu esporte (1,67 metro), pele morena, feições andinas, este ciclista colombiano contrasta de forma gritante com os bem-nutridos colegas de pelotão.

Nairo Quintana celebra a vitória na etapa 9 do Giro d’Italia 2017 (Foto: Divulgação/Giro d’Italia)

Neste domingo (14), Nairinho — apelidado por seu povo de “El Condor”, o pássaro-símbolo dos Andes — mostrou no Giro d’Italia por que é cotado para vencer novamente esta tradicionalíssima Grande Volta (as outras duas são o Tour de France e a Vuelta a España). Na nona etapa da prova, ele dominou a brutal subida de Blockhaus, chegando a seu cume sozinho, a mais de 20 segundos de vantagem dos rivais. Venceu a etapa e passa a vestir a “maglia rosa“, a camisa rosa de líder da competição. Nem o italiano Vincenzo Nibali, outro favorito a levar o título, conseguiu pegá-lo. É verdade que uma confusão envolvendo uma moto estacionada em local errado prejudicou vários atletas, em especial os da forte equipe Team Sky. Mas, provavelmente, nem sem a moto os competidores poderiam com a força física e mental que Nairo demonstrou durante a prova.

Desde que apareceu no circuito das grandes provas, “El Condor” virou paixão latina. De família humilde, começou a pedalar em sua montanhosa Colômbia para ajudar os pais, pequenos agricultores com cinco filhos, a vender as verduras que produziam nas cidadezinhas vizinhas perto de Boyacá. Na desigual Colômbia, os ricos geralmente moram nos vales, enquanto os mais pobres vivem nas íngremes encostas do país — enorme vantagem para Nairo, habituado a altas altitudes e percursos duros e inclinados. O menino pedalava diariamente 16 km para ir até a escola, em uma bike de segunda mão que o pai comprara para ele. Aos 16 anos, alternava as horas na bike com um expediente de taxista no carro da família. Começou a jornada ciclística em uma equipe de Boyacá, para depois se juntar aos prós do Team Movistar, em 2012, onde está até agora. Venceu o Giro de 2014 e a Vuelta do ano passado, o que já o coloca no panteão dos ciclistas mais galácticos e poderosos de toda a história.

Nairo Quinta, o Condor colombiano (Foto: Team Movistar)
A Colômbia, por uma série de fatores que extrapola a questão geográfica (o território montanhoso favorece o surgimento de bons ciclistas), se transformou em um berço de novos talentos do ciclismo de estrada e do mountain bike. Até no BMX o país desponta: a colombiana Mariana Pajón é o maior nome feminino hoje, com inúmeras vitórias em campeonatos mundias e duas medalhas de ouro, nas Olimpíadas de Londres e do Rio de Janeiro.

Ídolo local, Nairo ganhou até homenagem dos sertanejos Hermanos Suarez Texas. Nada a ver com a tradição “sofisticada” do ciclismo de estrada europeu — e, por isso mesmo, incrivelmente maravilhoso. Dá-lhe, El Condor!