Team Rwanda une inimigos e faz do ciclismo paixão nacional após genocídio

Por Erika Sallum

Durante anos, Ruanda foi sinônimo de uma só palavra: genocídio. O conflito entre as etnias Tutsi e Hutu que dizimou 800 mil pessoas em três meses, em 1994, destruiu o pequenino país no centro-leste da África. Dez anos atrás, entretanto, um tímido projeto envolvendo bike e esperança começou a transformar a nação – fazendo do ciclismo um poderoso elo de ligação entre grupos mortalmente rivais.

A história impressionante do projeto Team Rwanda, que em 2012 foi retratada no documentário “Rising from Ashes”, não surgiu apenas de um dos episódios mais trágicos do século 20. É também a saga de reconstrução de um ciclista norte-americano que viveu a glória do esporte e desceu ao absoluto ostracismo após um caso com uma menor de idade que o levou à prisão. Jock Boyer, primeiro atleta de seu país a vencer uma etapa do Tour de France, foi parar em Ruanda em uma viagem de pedal com o amigo e lenda do ciclismo Tom Ritchey, que também enfrentava uma fase difícil por causa de um divórcio. Ao chegar à “terra das mil colinas”, como é conhecida Ruanda, os dois não tiveram dúvida: iriam ambos recomeçar, em uma nação que também precisava renascer.

Cena do filme “Rising from Ashes”, de T.C. Johnstone (Foto: Divulgação)

Logo depois veio a ideia de criar um projeto dedicado a treinar talentos locais, que em pouco tempo se transformou em sucesso. Além de descobrir e desenvolver jovens ciclistas, o Team Rwanda também passou a organizar uma competição por etapas que virou febre nacional. Uma vez por ano, milhares de ruandeses ficam à beira das estradas para ver o pelotão de compatriotas e atletas estrangeiros disputarem o Tour de Ruanda. O presidente Paul Kagame é fã. Aos poucos, a paixão pelo ciclismo ganhou corações e mentes e se tornou o segundo esporte nacional.

O Team Rwanda também treina jovens para serem mecânicos, massagistas e outras funções ligadas ao esporte. E incentiva as ruandesas a pedalarem, em um país ainda bastante machista. Na equipe de elite, Tutsis e Hutus treinam e competem juntos nas montanhas locais (e agora nas provas mais importantes do mundo, incluindo as Olimpíadas). Ruanda, enfim, pedala com o vento a favor.

A seguir, um bate-papo com Jock Boyer sobre os desafios e planos do Team Rwanda:

Jock Boyer e a equipe Team Rwanda no Tour do Rio, em 2015 (Foto: Alírio de Castro)

Qual o maior legado do projeto Team Rwanda para o país e o ciclismo em geral?
Sem dúvida um dos maiores legados é que nós, de fato, criamos uma cultura do ciclismo em Ruanda. A federação desse esporte aqui cresce a cada ano, o governo de Ruanda nos reconhece e, ainda que o futebol seja mais popular e receba os maiores recursos, nós somos o segundo esporte nacional. Em breve o ciclismo pode vir a ser o primeiro. É absurdamente empolgante ver a cultura da bike crescer em uma nação que, 20 anos atrás, foi devastada por um genocídio. Outro legado foi a criação e a popularização do Tour de Ruanda, competição que roda e movimenta todo o país em novembro. É maravilhoso ter uma competição ruandesa reconhecida internacionalmente, que atrai tanta gente de outros países.

Quais são hoje os maiores desafios do projeto?
Os desafios de hoje são ligados à criação de mais clubes locais de ciclismo. Nós conseguimos formar atletas profissionais (estamos com quatro ciclistas em equipes de elite mundial). Mas também temos um trabalho de base, na formação de mecânicos, por exemplo. E esse tem sido o desafio: conseguir envolver cada vez mais pessoas daqui em atividades ligadas à bike que não apenas ciclistas. Por isso estamos bastante concentrados nessas áreas, que incluem o incentivo ao ciclismo feminino.

Por falar em ciclismo feminino, vocês também têm cada vez mais mulheres pedalando por aí?
Sim. Mas aqui isso envolve grandes barreiras culturais. Em Ruanda, ainda não é uma “coisa normal” ver uma mulher pedalando. Na África toda é assim, na verdade. Estamos implantando melhores mecanismos para detectar talentos femininos. O ciclismo feminino está crescendo por aqui, porém não tem sido um trabalho fácil.

E quais os planos para o futuro do Team Rwanda?
Temos grandes planos no horizonte próximo. Encontrei-me com o presidente Paul Kagame para discutir planos futuros para o ciclismo no país. Eu disse que precisamos de um velódromo. Ele gostou da ideia. Será um velódromo enorme, perto da capital, Kigali. Também vamos nos concentrar em projetos de turismo em Ruanda, em que os visitantes poderão conhecer o país de bike. Para isso, estamos criando um órgão central que cuidará especificamente de cicloturismo. E estamos já focando em cursos preparatórios de mecânicos, massagistas etc. Nosso objetivo é que, nos próximos anos, todas as funções que sustentam o ciclismo local sejam preenchidas com ruandeses, incluindo treinadores (entre os quais, por exemplo, há um de nossos ciclistas mais antigos, que está já se aposentando). Queremos ir para as provas internacionais com um staff 100% local. É uma conquista e tanto.

Assista ao trailer do filme “Rising from Ashes”: