As mulheres conquistam de vez seu espaço no mundo das bikes, nas cidades, estradas e trilhas

Por Erika Sallum

Entre as muitas revoluções que a bike vem protagonizando nos últimos anos, poucas são tão fortes e transformadoras quanto aquela liderada pelas mulheres. Se há uns cinco anos a presença de ciclistas femininas nas cidades, nas estradas ou nas trilhas era tímida, hoje isso mudou de forma impressionante. Seja em São Paulo, Nova York, Bangcoc ou no interior de Ruanda, elas estão subindo em suas magrelas, ganhando as ruas — e provando que bicicleta é, sim, coisa de mulher. Tanto faz se usam a bike por esporte, lazer ou para se locomover para o trabalho, o fato é que nunca houve tantas mulheres pedalando por aí.

As marcas finalmente descobriram o poder de compra do público feminino e passaram a desenvolver equipamentos feitos especialmente para as ciclistas. Um ótimo exemplo é a gigante norte-americana Specialized, que não apenas investe pesado em bikes femininas (a exemplo de suas ótimas Ruby e Era) como selecionou “embaixadoras” – meninas “gente como a gente” que representam a marca e organizam uma série de eventos para atrair cada vez mais garotas em cerca de 16 países (entre eles, o Brasil). Criada em 2014, a também norte-americana Machines for Freedom faz belíssimas roupas de ciclismo só para mulheres, pensando 100% nas necessidades desse público durante o exercício (um alívio para quem, antes, só tinha a opção de vestir camisas feiosas e largas e bermudas masculinas de caimento terrível).

Feminilidade e beleza dão o tom das roupas de ciclismo da norte-americana Machines for Freedom (Foto: Divulgação)

No esporte, o pelotão foi puxado pela holandesa Marianne Vos, 29, uma das maiores ciclistas de todos os tempos (entre homens e mulheres). Graças a Vos, a imprensa, os organizadores de provas e os patrocinadores estão percebendo que as mulheres conseguem atrair o grande público. Atualmente, por exemplo, a francesa Pauline Ferrand-Prévot, 29, que compete em estrada, mountain bike e ciclocross, é ídolo na Europa. E existem hoje versões só delas das tradicionais competições europeias conhecidas como as Grandes Voltas, como o La Course (que acontece no último dia do Tour de France) e o Giro Rosa (edição feminina do Giro d’Italia).

Em vários cantos do planeta, as mulheres se conscientizaram da enorme força da bike para o “empoderamento” feminino (para usar um termo “na moda” hoje). Pedalar nos torna mais independentes, donas de nossas próprias trajetórias. E, se no caminho o pneu furar ou a corrente quebrar, basta trocá-los — como ensinam os vídeos tutoriais das meninas do Chave Quinze.


Para ficarem por dentro de assuntos ligados à bike e afins, as moças agora contam com publicações voltadas para elas, como a novíssima revista britânica Casquette, lançada em 2016. As modernosas ciclistas do site norte-americano Pretty Damn Fast postam notícias, tendências e debates sobre temas ligados a mulheres e bicicletas. No Brasil, desde o ano passado existe o site Canela.cc, criado pela advogada e ciclista Adriana Vojvodic, 34. O projeto cresceu e hoje ela também organiza pedais, participa de treinos para outras mulheres e desenvolve produtos, como uma camisa (chamadas no meio de “jerseys”) e um cap (o clássico “boné” de ciclista). A seguir, o Ciclocosmo bateu um papo com Adriana:

Laila Rodrigues e Adriana Vojvodic, com a jersey e o cap do Canela.cc (Foto: Arquivo pessoal)

A que você credita este “boom” de mulheres descobrindo o universo das bikes? Uns cinco anos atrás, isso seria impensável…
ADRIANA VOJVODIC: Para mim é engraçado fazer uma avaliação, já que faço parte desse boom! Comprei uma bike há pouco mais de dois anos, e em pouco tempo me vi treinando ao menos três vezes por semana, indo para a estrada percorrer distâncias até então inimagináveis para mim. E esse movimento faz parte de algo maior, não apenas no Brasil ou só restrito ao ciclismo. É um movimento alinhado com outros esportes, em que as mulheres estão se autorizando e indo para espaços historicamente muito masculinos, como são a maior parte dos ambientes esportivos.

O que as bikes têm que te cativaram tanto?
A bike é uma invenção incrível. Depois de adulta, eu nunca mais havia praticado esportes. Parei na adolescência e, tirando algumas fases de academia, estava parada fazia uns bons anos. Voltar a me movimentar me pôs em contato com meu corpo de uma forma muito diferente, me fez olhar para dentro de mim mesma. Foi um processo de auto-conhecimento profundo e totalmente espontâneo. Isso me fez colocar um monte de ideias e projetos em ação, como se o movimento que eu gero na bike fosse levado para outros aspectos da minha vida.

De que maneira a bicicleta pode “empoderar” uma mulher?
Entendo que a bicicleta permite a vivência de uma sensação pouco experimentada pelas mulheres: a sensação de liberdade. E essa sensação pode ser um gatilho para outras experimentações. Há aí um potencial transformador muito forte e muito relacionado à independência, à autonomia e ao desenvolvimento da força física. Se me sinto livre na bike, por que vou deixar alguém dizer como eu devo mexer na minha própria bicicleta? Se sou livre na bike e ando sozinha por aí, preciso saber o que fazer no caso de um imprevisto, preciso me apoderar das informações necessárias, buscar conhecimento. Com isso vou me tornando mais independente. Para me sentir mais livre, preciso ficar mais forte fisicamente, aguentando pedalar mais e mais longe. Ao me fortalecer percebo que mulheres não são frágeis como me disseram a vida toda. E por aí vai, é um processo que não tem fim.

As amigas Diana Assennato, Adriana Vojvodic e Laila Rodrigues, em SP (Foto: Diego Cagnato)