Pedala que passa: estreia o blog para quem ama bike

Por Erika Sallum

Nos últimos 15 anos, pedalei consideravelmente. Desbravei trilhas Brasil afora (e levei tombos homéricos em muitas delas), encantei-me pelo ciclismo de estrada, explorei São Paulo em duas rodas, fiz uma penca de amigos esportistas e cicloativistas. Sou daquelas em que a sala de casa não comporta mais magrelas, capacetes, sapatilhas e caps espalhados por todos os lados. Edito uma revista 100% dedicada à bicicleta –a ‘Bicycling Brasil’–, além de outra publicação na qual mostramos como pedalar é uma ferramenta fundamental para se vivenciar a essência do mundo outdoor – a ‘Go Outside’. Tornei-me mais saudável e passei a comer direito por conta dos treinos e competições. Ah, então ninguém melhor para escrever este novíssimo blog que nasce nesta quinta-feira (27) e falar sobre como a bike e tudo que a cerca melhoram a saúde e nos blindam das doenças, certo? Errado.

Às 9h30 de 14 de janeiro de 2016, meu médico deu um bom dia meio amarelo e foi logo tascando: “Sim, Erika, é câncer”. Aos 39 anos, sem nenhum histórico na família, sem jamais ter sido fumante ou bebido em excesso, eu me sentei, em choque, na cadeira branca do consultório para ouvir dele que o tal caroço do seio esquerdo era mesmo um tumor maligno.

O que se seguiu foi mais frenético que descer rasgando a Serra de Campos do Jordão (SP) a 80 km/h, com vento lateral. Não houve tempo para refletir: a cirurgia de mastectomia seria dali a duas semanas. Depois viriam os exames para detectar se havia metástase. A quimio começaria em um mês. Em meio à enxurrada de novos termos que depois se tornariam familiares, como “linfonodo sentinela”, “Granulokine” e “leucopenia”, consegui detectar uma frase do dr. Wagner que mudaria a forma como eu encararia minha luta contra o câncer dali em diante: “Ainda bem que você é ciclista, pedalar vai ser muito importante durante o tratamento”.

Ao longo de 11 meses, fiquei careca, emagreci, vomitei, inchei de corticóides, tomei injeções na barriga para aumentar os glóbulos brancos, andei de máscara e enfrentei 16 sessões de quimioterapia. Ganhei cicatrizes também, algumas físicas e outras bem piores na alma –como as provocadas pelo namorado gringo que foi embora depois de dizer que “ficou sabendo na internet que a quimio oferecia riscos à saúde dele” (isso mesmo que você leu, à saúde DELE). “Se eu continuar aqui na mesma casa, o indicado seria eu usar luvas e dar descarga QUATRO vezes se usarmos o mesmo banheiro”, afirmou ele no dia seguinte a minha primeira quimio.

Em nenhum momento nesse caos todo eu parei de pedalar. Quase não senti fadiga, um dos sintomas mais comuns em pacientes de câncer – graças, segundo os médicos, ao meu bom condicionamento físico. Nos finais de semana, com frequência eu fazia mais de 90 km com meus amigos em estradas de São Paulo. Pedalava, claro, bem mais devagar que antes, não raras vezes sentindo uma náusea violenta. Mas era ali, em cima da minha bicicleta, que eu me sentia mais viva, que eu enfim compreendia o tal clichê de que “calma, é só uma fase, vai passar”…

Olhando para as fotos que meu amigo e grande fotógrafo de ciclismo Diego Cagnato fez durante o tratamento – e que publico, em parte, aqui –, só consigo pensar na sorte de ter descoberto cedo o poder transformador de uma simples bicicleta – seja ela uma supermáquina para encarar estradas ou um modelo “do Itaú” para dar umas voltinhas num domingo à tarde. Pedalar ensina humildade, empatia, esperança. Como nenhuma outra invenção humana, a bike coloca a todos nós no mesmo patamar – os mountain bikers mais abastados devem se lembrar das muitas vezes em que estavam na trilha com suas 29er full carbon e emparelharam com um tiozinho de “Barra Forte”, e os dois abriram um sorrisão, tornando-se, mesmo que por apenas alguns minutos, bons companheiros ciclísticos.

E é sobre esse amor que nos impulsiona a cada rotação do pedivela que tratará este blog, e abordará a bicicleta em todos os seus desdobramentos –de treinamento e competições (Vive Le Tour!) a ativismo e mobilidade urbana, passando por equipamentos, nutrição e pessoas que estão mudando o planeta com suas bicicletas. Curtiu? Então escreva, mande sugestões de temas para serem abordados aqui, compartilhe os posts, conte do blog para os amigos. O Ciclocosmo é seu mais novo clube de ciclismo virtual. Cola na roda e vem junto!

Na véspera da mastectomia, ainda de cabelos longos (Foto: Diego Cagnato)
Os treinos eram constantes, mesmo durante a quimio (Foto: Diego Cagnato)

 

Esperando para fazer exame de sangue logo após o pedal (Foto: Diego Cagnato)

 

Em dias de chuva ou muito frio, a saída era treinar dentro de casa (Foto: Diego Cagnato)